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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Iceberg da Socialização Escolar Infantil e a Falsa Tolerância.


Pensando aqui no velho argumento da socialização escolar, usado por muitos que são contra a Educação Domiciliar. No entanto, o que se esconde por trás deste argumento tão defendido?

Na verdade, esta ideia revela a concepção que o adulto possui sobre a criança e o desenvolvimento infantil . Talvez, sem intenção ou até intencionalmente, quando um adulto julga que a criança precisa mais do social do que de si mesma  para se desenvolver totalmente, está dizendo também que seu potencial individual só será alcançado em detrimento da convivência diária com outras crianças da mesma idade e um ou dois adultos que não sejam familiares. Pois é isto que estão chamando de social, quando defendem a socialização escolar, simplesmente ignoram as possibilidades de socialização além do ambiente escolar. Estão desconsiderando as possibilidades de convivência social dentro do âmbito familiar e comunitário. 

Este adulto está afirmando que o potencial individual da criança, aquela chama criativa que Montessori descreve como um embrião espiritual, simplesmente não existe. 

Este adulto também está afirmando que conviver com pessoas da família, que realmente amam a criança, é menos “produtivo” para o seu desenvolvimento, pois a convivência forçada com outras crianças produzirá “tolerância”. Como se a família estivesse reclusa em quatro paredes sem conviver em sociedade ou ainda que a convivência com pessoas de todas as idades não a preparasse melhor para ser um adulto tolerante do que apenas conviver com crianças da mesma idade de uma comunidade apenas.
      

 Este adulto ainda está ignorando a maneira como a criança aprende. Sim, a criança aprende sozinha. Até mesmo Paulo Freire chegou a esta conclusão, de que “ninguém ensina ninguém”, mas muitos que acreditam nesta frase a complementam dizendo para si que isto não se encaixaria no que se refere aos pequenos. Pois estão errados. A criança aprende de si mesma. Aprende com sua motivação e curiosidade impulsionando-a. Por isto um ambiente preparado no lar poderá ser  melhor para seu desenvolvimento do que o dia inteiro em uma sala cheia de outros bebês, e uma ou duas professoras fazendo malabarismos para suprir suas necessidades (e muitas vezes ficando imóveis em berços ou visualizando os mesmos estímulos coloridos e exagerados diariamente, como muitos dos brinquedos desnecessários presentes em várias escolas). 

Nada justifica obrigar uma criança de 0 a 6 anos a frequentar o ambiente escolar, sem que a família tenha necessidade de fazer isto. E cada família tem seus motivos e razões para optar por isto. Há famílias que as mães sustentam sozinhas o lar e aí é quase impossível praticar o Homeschooling Integral mas conseguem fazer parcialmente (e há casos que com o apoio de avós e familiares estão conseguindo).

Tudo é questão de prioridade e de escolha quando o assunto é Educação dos filhos, não é mesmo? No entanto cada família deve respeitar suas limitações e elencar suas prioridades, o que não pode é achar que só há o seu jeito (e o que o ensino escolar obrigatório nos diz é exatamente isto, só há o jeito escolar de ensinar).
Esquecemos da socialização? É o que pensam, não é mesmo?

A verdade é que nenhuma criança necessita estar dos 0 aos 6 anos, durante esta fase tão delicada e potencialmente criativa da vida, rodeada por um ambiente não familiar e com pessoas "estranhas". Neste período da vida a criança precisa muito mais da afetividade e de um ambiente familiar , do que interagir com 30 ou 40 outras crianças da mesma idade e de um adulto ditando as regras. As demais necessidades da criança, sejam especiais ou não, podem ser atendidas de forma especial com ajuda profissional.

É óbvio que não falo em isolamento (pois quem compreende o que é Homeschooling sabe que este argumento é um mito da ignorância do que realmente significa a Educação Domiciliar) e também não falo de individualismo mas de individualidade, (apesar de achar óbvio isto para quem conhece o assunto, é sempre bom reiterar aos que costumam distorcer os textos para os extremos),  mas,  sim,  defendo a criança, em seu lar, rodeada de pessoas que a amam e em um ambiente que permita o auto aprendizado. Onde o adulto não é o protagonista, mas o mediador. Esta é uma realidade de muitas famílias, que ainda são minoria e como toda minoria deveria ser também ouvida e tolerada. 

Pois, cá entre nós,  até que ponto esta "micro sociedade" chamada escola que força uma convivência artificial pode garantir como resultado a aclamada tolerância das diversidades (uma das teclas mais batidas ). O que seria tolerância? De acordo com dicionário "tolerância, do latim tolerare (sustentar, suportar), é um termo que define o grau de aceitação diante de um elemento contrário a uma regra moral, cultural , civil ou física.” No entanto é tão incoerente e falsa esta tolerância vendida pelos que argumentam contra o Homeschooling, que me causa risos. Como podem pregar a tolerância ao mesmo tempo que não toleram os que não querem se submeter ao ensino escolar?  

Enfim,  por tudo isto,  sempre que alguém argumenta que a criança não irá se desenvolver adequadamente sem a socialização escolar, por baixo da superfície a pessoa está dizendo :

 "Se não controlarmos de forma coletiva os impulsos naturais da criança , ela não será o adulto que queremos que ela seja. Por isto precisamos controlar o corpo delas (sentados em cadeirinhas minúsculas pelo tempo que determinamos), precisamos dizer o que ela precisa aprender (o currículo é nosso e os pais não podem interferir, nós que sabemos o que seu filho precisa aprender). Precisamos fazer elas mostrarem algum resultado de nosso trabalho (seja nas quantidades absurdas de tarefas para casa, ou trabalhos feitos atropeladamente e enviados no final do bimestre ou ainda nas apresentações "fofinhas" de dias festivos em obrigaremos seu filho a ensaiar e decorar).Sim. E enquanto fazemos isto tudo você estará livre para ser você mesmo e alcançar seu sucesso individual, sim, porque você sim que é um indivíduo com escolha e cheio de potencial, não precisa perder horas com um outro ser tão pequeno. Não se prenda!"

Dito isto,afirmo que sim, as escolas são necessárias, mas para quem possui necessidade delas. Não deveriam ser obrigatórias. E sim, há educação fora do currículo escolar (acho que alguns podem até desmaiar lendo isto rsrs).

E por isto o argumento da socialização é um imenso Iceberg. Na superfície há a impressão positiva que a criança precisa de um convívio com outras crianças de sua idade, e com este argumento escamoteia-se todas as concepções distorcidas de infância e desenvolvimento infantil, toda a limitação do adulto de compreender na criança um ser que não precisa ser controlado ou ser separado da sociedade.

Uma ilustração exagerada para visualizar isto seria lembrar dos leprosos dos tempos bíblicos ou os loucos na idade média, a criança seria este ser diferente que precisa ser isolado, colocado em quarentena, entre seus iguais, para não contaminar a sociedade. Imagine se a sociedade toda se contaminar com a criatividade e o impulso de aprendizado infantil? Pode parecer um pouco exagerado pensar isto, mas até os apóstolos tentaram isolar as crianças de ter contato com Cristo ao que o Ele falou: "Deixai vir a mim as criancinhas, não as impeçais".  

Olha, se você tem um filho pequeno e saiu com ele dia de semana em horário escolar sabe exatamente o que estou falando. Os olhares das pessoas por ter uma criança ali, fora da escola, solta na sociedade! Os olhares dizendo “Que absurdo! Socorro ! Uma criança solta! Prendam já!”. E muitos não resistem e perguntam “Você está indo para a escola? Faltou a aula hoje?”. E sem falar nos parques vazios e o silêncio das ruas, e os olhares de reprovação dos adultos ao ver que você está ali passeando com seu filho na livraria quando ele deveria estar lá, contido com seus “pares”. E enquanto eles olham para meu filho e veem a desordem de minha desobediência, eu vejo o silêncio do mundo e penso em todas as crianças que poderiam estar ali apenas brincando e sendo crianças. 

Eu sei que no Homeschooling a criança não viverá somente de rosas (não falei isto em nenhum momento). E até por isto a ação do Estado se faz necessária, provendo escolas para os que necessitam e fiscalizando os que assumem a Educação dos filhos para si. Isto pode gerar um outro texto no futuro, mas sim, posso adiantar que a minha posição não é ser contra escolas e nem contra a ação do Estado em fiscalizar os Homeschoolers.

Como mãe e Educadora domiciliar, não sinto nenhum embaraço em prestar contas do que ensino e do trabalho educativo que realizo em meu lar. Tanto que o compartilho abertamente em diversas redes sociais, até como forma de inspirar outros pais. Penso que fiscalizar que não há o abandono intelectual é uma coisa totalmente diferente do que obrigar as famílias a utilizarem o currículo do MEC.

Eu só queria mesmo que os adultos parassem de fingir que querem colocar as crianças nas escolas por se importarem com elas, porque o iceberg emergiu, e não há mais como esconder. Não dá mais para mentir que colocou o filho no jardim com 4 meses para ele deixar de ser egoísta e aprender a viver em sociedade. Seu filho precisa mais de você do que de outros 30 bebês chorando por atenção. 

Pense nisto, e um bom dia!

Glaucia Mizuki
Pedagoga e Coaching Educação Domiciliar

Fotografia Menino com doce, feita pelo fotógrafo DIOGO TEIXEIRA, utilizada aqui para adoçar a vida de todos os que ainda sentem amargor por trás do tema Socialização Escolar... rs.


Para ilustrar, esta imagem da internet, no aquário o peixinho preso (é como imaginam que seja o Homeschooling, ao lado o peixe solto no oceano (como o Homeschooling realmente é). Então a imagem de vários peixes iguais (os pares) caminhando juntos (o que seria a escola ) e ao lado o que realmente é (sendo enlatados,confinados,formatados).

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4 comentários:

  1. Perfeito texto! Perfeito pensamento! Compartilho da mesma ideia! Não trabalhei fora de casa para estar com meus filhos por 13 anos. Colho ótimos frutos! Todos sentem e vêem como meus filhos são felizes e sim educados!!! Convivem com uma diversidade de pessoas e de idades e sabem quem eles são. Nem mais nem menos que ninguem. Hoje com 35 anos, depois de conhecer Montessori (meu filho mais novo estuda em escola Montessori), vislumbro a possibilidade de fazer pedagogia e estudar muito Maria Montessori.
    Agradeço o compartilhamento!

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    1. Obrigada pelo comentário e feedback. Eu penso e sinto isto mesmo que você resumiu bem ao dizer "nem mais nem menos que ninguém". É isto.
      Quem faz Homeschooling não está querendo se impor para quem estuda em escola e nem se sentir mais, apenas quer ter o direito de estudar em casa.
      Gosto muito do método Montessori também, usa muita inspiração com meu filho tanto nos materiais como nas atividades.

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  2. Belo texto Glaucia. Cada vez me convenço de seguir por este caminho que você tao bem coloca para nós, maes de primeira viagem como eu. Meu bb tem 1 ano e 3 meses, ja sigo algumas inspiracoes montessorianas e seu blog tem um conteudo muito bom sobre homeschooling e varias outras inspiracoes. Parabens pelo bom trabalho e siga em frente. Bjs

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    1. Oi Livia muito obrigada pelo comentário! O blog mescla a inspiração em vários métodos e tenho um carinho pelo método Montessoriano. Realmente na fase em que seu bb se encontra as atividades montessorianas são excelentes.Bja.

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